Capítulo 2: A Variável Indecifrável
O silêncio que se seguiu à minha declaração foi mais denso do que qualquer matéria que eu já havia analisado. A poeira do Leviatã assentava-se suavemente sobre os escombros da Cidade J, e a única coisa que perturbava a quietude era a furiosa crepitação da aura de Tatsumaki. Seus olhos verdes, antes apenas irritados, agora ardiam com uma mistura volátil de incredulidade e fúria genuína. Chamar a todo-poderosa Tornado do Terror de "interessante" era, para ela, o insulto supremo. Era reduzi-la a um objeto de curiosidade, um quebra-cabeça a ser resolvido, e não uma força da natureza a ser temida.
"Interessante?", ela sibilou, e a pressão psíquica ao meu redor se multiplicou por dez. O ar ficou pesado, denso como mercúrio. O concreto do telhado em que estávamos começou a ranger e a se contorcer sob a força invisível. Para qualquer outra pessoa, incluindo os heróis da Classe S que agora se levantavam cambaleantes lá embaixo, essa pressão teria instantaneamente transformado seus ossos em pó. Para mim, a sensação não mudou. A brisa suave continuava sendo apenas uma brisa.
"Você não me ouviu?", ela gritou, a voz distorcida pela própria força que exercia. "Eu sou o Tornado do Terror! Herói da Classe S, Rank 2! Não sou um inseto para você analisar!"
Ela ergueu a mão e concentrou seu poder. Eu podia ver, não com meus olhos, mas com minha percepção da realidade, as energias se aglutinando. Ela estava tecendo as próprias leis da física, usando a mente para criar uma força telecinética focada, um projétil invisível de pura vontade, poderoso o suficiente para desviar um meteoro.
"A questão não é quem eu sou, mas o que você é", eu disse, minha voz perfeitamente calma, cortando sua fúria. "Sua aura não é apenas força bruta. É uma aplicação focada de entrelaçamento quântico não-local, manipulando campos de probabilidade para exercer força à distância. Você não levanta objetos, Tatsumaki. Você convence o universo de que eles deveriam estar em outro lugar. É... elegante. Mas ineficiente."
O projétil de força parou a centímetros do meu rosto. A expressão dela vacilou. A raiva deu lugar, por um microssegundo, a uma perplexidade absoluta. Ninguém jamais havia dissecado seu poder. Para o mundo, era magia. Para ela, era instinto. Para mim, era matemática.
"O-o que você está dizendo?", ela gaguejou, a pressão vacilando.
"Estou dizendo que você usa um martelo de titânio para pregar um prego, quando poderia simplesmente persuadir o prego de que seu estado natural é estar dentro da madeira", expliquei, dando um passo à frente. "Você tem um potencial que nem sequer começou a compreender. Você se limita a mover e torcer. Mas poderia reescrever."
Meu avanço fez com que ela recuasse instintivamente, algo que ela provavelmente não fazia há anos. O medo, uma emoção que ela pensava ter erradicado, cintilou em seus olhos antes de ser esmagado por seu orgulho.
"Fique longe de mim!", ela ordenou, e a cidade inteira tremeu. Carros, pedaços de prédios, toneladas de destroços ergueram-se no ar ao nosso redor, formando uma tempestade giratória de metal e concreto apontada diretamente para mim. "Eu não sei o que você é, mas vou te apagar!"
Eu observei o vórtice da destruição. Uma bela, embora previsível, demonstração de poder. Dentro da minha mente, meu verdadeiro campo de batalha, eu calculava. O problema não era a ameaça. Não havia ameaça. O problema era o meu próprio tédio existencial. Por três anos, o universo fora um livro aberto e terrivelmente chato. Cada supernova, cada buraco negro, cada monstro gigante era apenas mais um parágrafo previsível. Eu estava morrendo de tédio em uma escala cósmica.
E então, olhei para ela. Tatsumaki. Ela não era um parágrafo. Ela era uma caótica e bela equação diferencial sem uma solução clara. Sua lógica era falha, movida por orgulho, trauma e uma solidão tão profunda que criava seu próprio campo gravitacional. Sua força era imensa, mas seu controle era primitivo. Ela era a primeira variável verdadeiramente imprevisível que eu encontrava desde que transcendera.
Ela era a cura para o meu tédio.
Para estudá-la, para entendê-la, para resolver essa fascinante equação, eu precisava de proximidade. Precisava de acesso. E qual era a maneira mais eficiente de obter acesso a um herói da Classe S?
A tempestade de destroços desabou sobre mim.
Não me defendi. Apenas apliquei um único conceito ao espaço que eu ocupava: inércia absoluta. Cada pedaço de concreto, cada viga de aço, cada carro que me atingiu simplesmente parou, como se colidisse com uma ideia imóvel. Em segundos, eu estava no centro de uma esfera de detritos perfeitamente suspensa no ar, ileso.
Com um pensamento, deixei a esfera desmoronar suavemente ao chão, sem causar mais danos.
Tatsumaki ofegava, não de esforço, mas de choque. Ela havia jogado tudo o que tinha, e eu nem sequer me mexera.
"Isso... isso é impossível...", ela sussurrou.
"Apenas improvável", corrigi. Virei-me para sair, caminhando até a beira do telhado.
"Espere! Eu não terminei com você! Quem é você?! O que você quer?!", ela exigiu, sua voz agora carregada de uma frustração desesperada.
Parei e olhei para ela por sobre o ombro. "O que eu quero? Eu quero um remédio para o tédio. E para isso, preciso do acesso adequado."
Antes que ela pudesse processar, saltei do prédio. Para ela, deve ter parecido suicídio. Para mim, foi apenas um ajuste na minha interação com a gravidade. Aterrissei suavemente na rua devastada, tão levemente quanto uma folha.
Enquanto eu caminhava para longe da zona de desastre, uma figura cibernética pousou na minha frente com um baque metálico. Genos. Seus sensores ópticos brilhavam intensamente, analisando-me de cima a baixo.
"Identidade desconhecida. Leituras de energia... anômalas e inconclusivas. Você foi o responsável pela neutralização da ameaça de nível Dragão?", ele perguntou, sua voz um monotom sintético.
"Eu estava na vizinhança", respondi, sem parar de andar.
"Meus sensores não conseguem obter uma leitura coerente de você. É como se você não estivesse emitindo nada, mas ao mesmo tempo estivesse alterando o ambiente em um nível fundamental. Por favor, identifique-se para o registro da Associação de Heróis."
Eu parei e olhei para o ciborgue. Atrás dele, pude ver outros heróis se aproximando: Metal Bat apoiado em seu taco, Tanktop Master sendo ajudado por sua equipe. Todos me olhavam com uma mistura de admiração e suspeita. E no céu, uma pequena mancha verde pairava, observando. Tatsumaki ainda estava lá.
Um plano se formou, a solução mais lógica e eficiente para o meu novo objetivo.
"Ainda não tenho um registro", eu disse a Genos, um raro traço de diversão em minha própria voz. "Mas estou indo resolver isso agora."
Genos inclinou a cabeça, seus processadores claramente lutando para categorizar minha intenção. "Qual é o seu destino?"
Olhei na direção do centro da cidade, onde o imponente arranha-céu da sede da Associação perfurava as nuvens.
"Associação de Heróis", declarei. "Acredito que eles tenham um formulário de inscrição."
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