Capítulo 3: A Métrica da Singularidade
O caminho para a sede da Associação de Heróis era uma caminhada através de um problema de física já resolvido. A destruição causada pelo Leviatã era um testemunho de forças e energias que, para mim, eram tão elementares quanto a aritmética para um matemático. Genos caminhava ao meu lado, um silêncio tenso pairando entre nós. Seus passos eram pesados, mecânicos; os meus, silenciosos. Eu sabia, sem precisar olhar, que cada um de seus sensores estava trabalhando no máximo, tentando decifrar o enigma que eu representava. Seus processadores deviam estar superaquecendo com loops de erro: Energia de base: indetectável. Potencial de ameaça: incalculável. Fonte de poder: desconhecida.
"Seu método de combate desafia a física conhecida", Genos quebrou o silêncio, sua voz sintética desprovida de emoção, mas carregada de uma curiosidade insaciável. "A desintegração molecular do alvo não produziu a radiação gama esperada. Foi uma cessação de existência, não uma destruição."
"A destruição é barulhenta e ineficiente", respondi, mantendo o olhar fixo na torre da Associação à distância. "O universo prefere o silêncio. Eu apenas o ajudo a alcançar seu estado preferido mais rapidamente."
Ele parou por um instante para processar aquilo. "Você fala como o Doutor Kuseno, mas sobre princípios que ele diria serem puramente teóricos. Você é produto de alguma organização? Da Organização, talvez?"
Eu quase sorri. Ele buscava uma origem, uma caixa para me colocar. Laboratório, organização, acidente. A mente humana anseia por catalogar. "Minha origem é uma biblioteca e uma conclusão", disse eu, o que era a mais pura verdade.
Enquanto conversávamos, uma presença irritadiça e poderosa me seguia do céu. A mancha verde de Tatsumaki nos acompanhava, mantendo uma distância segura, mas sua atenção era um holofote psíquico focado em minhas costas. Ela não estava atacando. Estava observando, confusa e furiosa. Eu ignorá-la era, para ela, um ato de guerra mais direto do que qualquer soco. Eu era uma anomalia em seu mundo ordenado de poder, e seu orgulho não a deixaria ir embora até que me entendesse ou me eliminasse.
A sede da Associação de Heróis era exatamente como eu previra: um monumento à burocracia, revestido de aço e vidro. No lobby, a agitação era a de um formigueiro. Heróis de classes inferiores se reportando, funcionários correndo com pranchetas. Ninguém me deu uma segunda olhada. Eu era apenas mais um civil em meio ao caos controlado.
Aproximei-me do balcão de informações, onde uma jovem entediada mascava chiclete.
"Pois não?", disse ela, sem levantar os olhos de sua tela.
"Eu gostaria de me registrar como herói", falei.
Isso a fez olhar para cima. Ela me avaliou de cima a baixo – jeans, camiseta preta, nenhuma musculatura exagerada ou traje chamativo. Um suspiro de enfado escapou de seus lábios. "A avaliação física e o teste escrito são no terceiro subsolo. Pegue um número e espere ser chamado. Se passar, talvez entre para a Classe C." Ela apontou para um dispensador de senhas.
Peguei a senha. Número 302. Genos observava tudo, sua expressão metálica ilegível. Tatsumaki, eu sentia, pairava do lado de fora da janela do 50º andar, sua paciência se esgotando como um isótopo radioativo.
A espera foi breve. Minha presença, embora sutil, parecia acelerar os processos ao meu redor. As pessoas sentiam um impulso inexplicável de resolver suas tarefas e me dar passagem.
O exame foi realizado em um ginásio cavernoso. Um oficial de terno, com um bigode proeminente que identifiquei como Sitch, um dos executivos da Associação, supervisionava os testes com um ar de cansaço. Ele nos deu as instruções: um teste escrito de 50 perguntas, seguido por uma série de testes físicos para medir força, velocidade e agilidade.
Recebi a folha do teste escrito. As perguntas eram simplistas. 'Um monstro ataca um banco. Há reféns. Qual a sua prioridade?' Minha resposta: 'A premissa da pergunta é falha. A prioridade não é uma escolha binária entre o monstro e os reféns. É a reconfiguração instantânea da situação para um estado onde a ameaça é neutralizada e o risco aos reféns é zero. Isso pode ser alcançado pela manipulação do fluxo de tempo local para extrair os reféns antes mesmo da percepção do monstro, ou pela desativação neurológica não-letal do agressor. A questão deveria ser sobre a metodologia mais eficiente, não sobre um dilema moral artificial.'
Eu completei o teste de 50 perguntas em quarenta e sete segundos. Cada resposta era uma dissertação concisa que não apenas respondia, mas corrigia a pergunta. Entreguei-o ao avaliador, que piscou, confuso, e o colocou na pilha para correção.
Então veio o teste físico. O primeiro foi o salto lateral contínuo. Enquanto outros candidatos suavam, saltando de um lado para o outro, eu simplesmente parei no centro. Quando o cronômetro começou, meu corpo pareceu piscar, aparecendo alternadamente nos dois lados da linha, sem nenhum movimento intermediário. Eu estava alterando minha posição no espaço, não me movendo através dele. O sensor contou 280 saltos em 30 segundos antes de começar a soltar fumaça.
O próximo foi o 'Whack-a-Mole'. Em vez de usar o martelo, eu apenas olhava para os 'moles' conforme eles apareciam. No instante em que meu olhar se fixava neles, eles paravam e, em seguida, desintegravam-se silenciosamente em pó.
O murmúrio no ginásio aumentou. Sitch, o executivo, agora me observava com total atenção.
Finalmente, a máquina de soco. A mesma que Saitama havia quebrado. Eu me aproximei. Não cerrei o punho com força. Apenas estendi os nós dos dedos em direção ao alvo. Não era sobre impacto. Era sobre conceito.
No momento do contato, eu não apliquei força. Eu introduzi um paradoxo na estrutura da máquina: a ideia de que ela nunca teve resistência. Meu punho passou através do alvo como se ele fosse um holograma. Não houve explosão, nem som de quebra. A máquina inteira simplesmente... se desmontou. Parafusos se desenroscaram, placas de metal se soltaram e caíram no chão, e os componentes internos se espalharam em uma pilha organizada, como um diagrama técnico explodido.
O ginásio ficou em silêncio absoluto.
Fui levado a uma sala de espera. Dez minutos depois, Sitch entrou, acompanhado por três outros oficiais de alto escalão. Eles pareciam ter visto um fantasma.
Sitch pigarreou, segurando uma prancheta com as mãos trêmulas. "Ryo... é o seu nome? Seus resultados... eles quebraram todos os nossos sistemas de medição. Na parte física, você obteve uma pontuação perfeita em tudo. Na verdade, uma pontuação infinita. E o teste escrito..." Ele engoliu em seco. "Nossa equipe de psicólogos e estrategistas está analisando suas respostas. Eles disseram que não são respostas, são... revelações. Eles querem publicar um livro sobre isso."
Ele me olhou nos olhos. "Nós não temos uma categoria para você. Com base em seu poder demonstrado e sua inteligência tática, que excede qualquer coisa que já vimos, a diretoria tomou uma decisão unânime e imediata. Bem-vindo à Associação de Heróis. Você está sendo colocado na Classe S, Rank 3."
Era exatamente como eu havia calculado. A posição perfeita. Perto o suficiente do topo para ter acesso irrestrito, perto o suficiente dela.
"Aceito", eu disse simplesmente.
Quando saí do prédio, a noite já havia caído. A primeira pessoa que vi não foi Genos. Foi ela. Tatsumaki estava flutuando na minha frente, a poucos metros do chão, sua aura verde brilhando perigosamente na escuridão. Sua raiva havia se transformado em algo mais frio, mais afiado. Era suspeita.
"Classe S, Rank 3", disse ela, a voz baixa e cortante. "Você manipulou tudo isso. A luta, os testes. Você não está aqui para ser um herói."
Ela se aproximou, o vento chicoteando ao seu redor. "Isso é algum tipo de jogo para você? O que você quer de verdade, Ryo?"
Olhei para a figura pequena e furiosa que continha o universo de complexidade que eu buscava.
"Eu já te disse", respondi com sinceridade. "Estou procurando por algo interessante."
Comentários
Postar um comentário